Pterossauros: Quando os répteis voavam
Conheça os répteis alados que dominavam os céus há 145 milhões de anos.
por Flávio Dieguez
http://super.abril.com.br/mundo-animal/pterossauros-quando-repteis-voavam-441020.shtml
Há 145 milhões de anos, o céu foi tomado por pterossauros, os
répteis alados. Eles se multiplicaram em novas espécies. Foi uma
explosão demográfica nos ares. Agora, depois dos dinossauros, os
pterossauros se tornaram o tema preferido dos paleontólogos.
Visto
do solo, era uma simples mancha, difícil de encontrar entre as nuvens
do céu. Apesar disso, de uma ponta a outra das asas abertas, o tupuxuara
media cerca de 6 metros — duas vezes mais que o condor dos Andes, uma
das maiores aves vivas. E não era uma ave. Era um réptil
voador — um dos muitos e muitos répteis extravagantes que tomaram conta
do céu, no passado. Por isso, receberam o nome de pterossauros, palavra
que quer dizer “réptil de asas”.
Quando o tupuxuara ensaiou seus primeiros vôos, há 110 milhões de anos, os pterossauros já eram velhos habitantes da Terra.
Haviam aparecido cerca de 150 milhões de anos antes. Por um longo
tempo, porém, eram poucos e primitivos demais. Até que veio uma
verdadeira revolução: há 145 milhões de anos o número de espécies se
multiplicou enormemente e as novas versões de pterossauros inundaram o planeta.
Alguns
eram pequenos como pombas. Outros, imensos. Maiores até que o
tupuxuara. Os ossos deste último estão causando sensação porque foram
achados na Chapada do Araripe. E essa região, situada na fronteira entre
o Ceará e Pernambuco, é uma mina de pterossauros petrificados. Ela está
sendo explorada não só pela quantidade, como pela qualidade dos
fósseis.
Mas a grande estrela do show, no final das contas, é mesmo a revolução dos pterossauros. Sua espetacular explosão demográfica.
Os
pterossauros aparecem no cinema e nas histórias em quadrinhos quase
como uma fraude. Não são inteiramente falsos, mas sempre se apresentam à
platéia como algum tipo de ave. E isso é algo que os pterossauros,
répteis voadores, nunca foram. Quando as primeiras aves pisaram na Terra,
ainda incapazes de voar, os pterossauros já estavam no mundo, milhões
de anos antes. E já eram mestres acabados das manobras aéreas.
Por
ironia, as mais avançadas pesquisas começam a confirmar as fantasias da
arte. Na sua divertida ignorância, os cineastas e desenhistas acabaram
acertando nas aparências. Se, na essência, os pterossauros nada tiveram a
ver com as aves, e isso é certo, podem ter sido muito parecidos com
elas no modo de viver. E ocuparam os mesmos nichos ecológicos que elas
iriam conquistar, mais tarde.
Pode ter havido um
pterossauro-tucano, por exemplo. É o que mostra uma reportagem recente
da revista americana Discover. Nela se diz que o tapejara, descoberto no
Brasil, tinha um bico comprido e liso, sem dentes, não muito diferente
do bico dos tucanos. E como eles vivia em matas fechadas e se alimentava
de frutas. Outra espécie descrita na Discover, à maneira dos patos
vasculhava a lama dos charcos.
Uma espécie, conhecida pelo nome
de pterodaustro, pode ter sido o flamingo de sua época. Tinha centenas
de pequenos dentes que devem ter sido usados como uma rede, para filtrar
insetos e algas. O flamingo é assim: tem no bico um serrilhado que
serve para separar o almoço da água.
São especulações. E difíceis
de comprovar, por enquanto. Mas elas estão se tornando cada vez mais
plausíveis. É possível, até, que nos próximos anos se resolva uma
questão-chave na história desses répteis: a maneira de voar.
Até
aqui, prevaleceu a hipótese de que os répteis voadores não teriam plena
destreza no ar. De acordo com essa hipótese, a culpa seria das asas,
que não passariam de uma peça de couro. Apenas uma extensão da pele do
corpo, esticada pelos braços. Por isso, não seriam muito flexíveis.
Bem
diferente é a asa das aves: construída com várias fileiras de penas, é
maleável. Uma parte da asa pode mover-se em relação às outras.
Conseqüentemente, as aves executam movimentos mais precisos.
Mas a
hipótese que fez dos pterossauros voadores de segunda categoria vem
sendo desmentida pelas novas pesquisas. De acordo com elas, as asas dos
répteis não eram tão grosseiras como se pensa, porque, sob a pele,
escondiam notáveis fibras de colágeno. “Cordões” de proteína. Macios,
mas firmes. Quase como hastes dentro das asas. Em outras palavras, as
fibras teriam um papel equivalente ao das penas, isto é, serviam para
dar uma estrutura maleável às asas e também maior flexibilidade ao vôo.
Muitas asas fossilizadas de pterossauro têm marcas que podem ter sido deixadas pelos cordões de colágeno. Num fóssil
encontrado há pouco tempo na Alemanha, daria até para ver a ponta de
algumas fibras. Pelo menos é esse o diagnóstico do zoólogo Jeremy
Rayner, da Universidade de Bristol, na Inglaterra. Especialista em
aerodinâmica dos animais, Rayner aposta na habilidade de vôo dos pterossauros. E diz que, se eles não foram tão capazes quanto as aves, chegaram perto. Com maestria.
Em
ciência, uma coisa puxa outra. Novos achados quase sempre sugerem novas
idéias, ou levantam a bola de possibilidades até então duvidosas. Com
os pterossauros foi assim: saber que eles voavam bem fortaleceu a
hipótese de que teriam hábitos parecidos com os das aves.
Não é
difícil entender por quê. Veja-se a suposição de que alguns pterossauros
viveram à moda dos tucanos, comendo frutas em florestas densas. Fica
mais fácil aceitar essa idéia sabendo que os répteis podiam manobrar com
precisão em espaços estreitos. Entre galhos, cipós e folhas das matas.
Mas
nada ilustra melhor esse raciocínio do que o caso do quetzalcoatlus, o
maior pterossauro que se conhece. Apesar de ser muito leve, pesando
menos de 50 quilos, ele media 13 metros de uma ponta a outra das asas
abertas. Ou seja, tinha a envergadura de um caça da Primeira Guerra
Mundial, dimensão jamais alcançada por qualquer ave do passado ou do
presente. Basta ver que o albatroz, recordista mundial da atualidade,
tem apenas 4 metros de envergadura.
Até recentemente, aceitava-se
sem contestação a idéia de que o quetzalcoatlus reinava supremo a mais
de 1 quilômetro de altura. As imensas asas quase imóveis, apenas
oscilando para tatear as correntes de ar e não perder sustentação. E, lá
de cima, poderia descer para capturar pterossauros menores.
Essa
análise continua prevale-cendo. Mas ela está sendo contestada por dois
bons motivos. Primeiro, porque ninguém viu os restos das asas de um
quetzalcoatlus. Ele é conhecido apenas pelos avantajados ossos do ombro —
e daí se inferiu o tamanho das asas. O problema é que nem sempre ombros
poderosos têm de estar ligados a asas pequenas.
As garças, por
exemplo, não têm asas muito amplas, em comparação com seu corpo. E tudo
bem, porque boa parte do tempo ficam de pé, paradas ou perambulando nas
águas rasas dos pântanos e lagoas à caça de peixes. Não procuram comida
voando acima das nuvens — onde a maior envergadura das asas é crucial
para planar.
Resumo: os paleontólogos podem muito bem ter errado
de nicho ecológico quando viram o quetzalcoatlus no topo do céu. É
possível que ele exibisse asas modestas e fosse um pescador de águas
rasas. Um gigantesco pterossauro-garça.
E a segunda razão para
pensar assim foram justamente as novas noções sobre o aparelho voador
dos pterossauros. Mais precisamente, a desconfiança de que tinham asas
estreitas, como as das aves. E não asas largas, estendidas dos braços
até as pernas, como é o caso dos morcegos.
Se fosse assim, seria
difícil exibir a elegância das garças: o couro das asas travaria o passo
do quetzalcoatlus, que não poderia andar atrás dos peixes. Hoje, há
quem acredite que suas asas não fossem presas às pernas. É isso que
torna plausível imaginar um novo nicho ecológico para o portentoso réptil.
O
primeiro palpite de um cien-tista sobre os pterossauros foi um chute
que passou muito longe da meta. Em 1784, diante do primeiro fóssil encontrado, o zoólogo italiano Cosimo Collini ima-ginou estar vendo os restos de um mamífero marinho.
Duas
décadas mais tarde, no início do século XIX, ele foi corrigido pelo
anatomista francês Georges Cuvier. Nem mamífero, nem marinho, disse
Cuvier. Aquele fóssil pertencera a um parente distante das tartarugas e dos crocodilos. Dito de outro modo, era um réptil. E um réptil voador. Algo que nunca mais se veria nos céus do planeta.
Os
pterossauros foram os primeiros animais, além dos insetos, a ocupar
esse vasto nicho ecológico que é a atmosfera. Ainda hoje se sabe pouco
sobre o ancestral que deu origem a eles. A melhor suposição é que devia
lembrar um dinossauro. E por isso também se deduz que andava sobre duas
patas, como os dinossauros. Não quer dizer que esteja excluída a
alternativa quadrúpede — apesar da estranha figura que ela sugere.
De
uma maneira ou de outra, por volta de 225 milhões de anos atrás, os
pterossauros voavam de verdade. Não davam saltos prolongados. Nem
planavam por curtas distâncias, como fazem certos esquilos atualmente.
Voavam para valer, estabilizando as manobras no ar com ajuda de uma
cauda tão longa quanto sólida.
Mas eram bem pequenos. Nenhum
deles superava uma gaivota, um pato ou uma galinha em tamanho. E eram
muito raros. Durante um tempo enorme, não passaram de mar-ginais na
corrente criativa da evolução. O primeiro avanço desse grupelho de
répteis esquecidos pela natureza aconteceu há 180 milhões de anos.
Espécies novas amplia-ram a coleção dos pterossauros.
Em
comparação com seus antecessores, os novatos tinham cabeças maiores.
Haviam perdido os dentes, em parte ou por completo. E seus bicos eram
parecidos com bicos mesmo, em vez de bocas modificadas. Mais importante
que tudo: tinham reduzido a cauda em troca de um cérebro maior. Caudas
curtas não servem para estabilizar o vôo,
raciocinam os paleontólogos. Portanto, os novos pterossauros deviam
compensar a perda com um controle mais ágil das asas — com ajuda de um
cérebro maior.
Olhando para o passado, têm-se a impressão de que
essas primeiras mudanças foram um sinal. Anunciavam a formidável
proliferação de pterossauros ocorrida há 150 milhões de anos. E são os
fósseis desse período — desenterrados em número crescente, a partir da
década de 70 — que animam os paleontólogos. Eles dizem que as novas
informações disponíveis vão preencher as muitas lacunas ainda existentes
na história dos répteis voadores. E assim talvez seja possível reconstruir com mais precisão o estranho mundo que habitaram.